A Centralidade da União da Esquerda
“As tarefas de um partido estão determinadas por
uma multiplicidade de fatores: pela posição do desenvolvimento geral,
econômico, político, intelectual e moral, na esfera da sua atividade, pela
natureza dos partidos que atuam a seu lado ou contra ele, pelo caráter dos
meios que estão no seu comando e por uma série de fatores objetivos e
ideológicos, a cuja frente se situam a principal finalidade do partido e a sua
concepção do melhor caminho para atingir essa finalidade” [1].
Se um
europeu desavisado caísse de paraquedas no Brasil hoje, ele ficaria bastante
surpreso ao ver que o segundo turno das eleições presidenciais será uma disputa
entre uma candidata do Partido dos Trabalhadores (PT) e um candidato do Partido
da Social Democracia Brasileira (PSDB). Se lhe contassem que este cenário em
âmbito nacional se repete há vinte anos, ele ficaria ainda mais confuso e
poderia ser levado a crer que o Brasil é um caso único no mundo, um país que
não tem direita. Todos sabemos o quanto ele estaria enganado se chegasse a essa
conclusão, pois conhecemos muito bem o PSDB, mas a verdade é que essa
polarização não é tão óbvia quanto parece.
A
social-democracia em todo o ocidente foi uma expressão política da esquerda,
foram nestes partidos que as massas de trabalhadores se organizaram quando
adentraram a política no final do século XIX e início do XX, e foi nos seus
governos que políticas sociais de caráter desmercantilizantes[2] foram
implementadas. Meu objetivo não é defender a social-democracia europeia, tão
criticada pelo PT em seus documentos fundacionais, mas ilustrar meu ponto. O
que intenciono dizer é que a polarização entre esquerda e direita no Brasil
poderia ter sido completamente diferente, e que no resto do mundo um partido
como o PSDB provavelmente estaria localizado em outro lugar deste continuum.
O PSDB
foi fundado em 1988 a partir de uma cisão promovida por parlamentares do Partido
do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) que se autodenominavam a ala mais
progressista do partido. Os principais motivos apontados por suas lideranças
foram a discordância ao o apoio da legenda à prorrogação do mandato
presidencial para cinco anos, cujo beneficiário imediato seria o então
presidente Sarney, a divergência com a posição majoritária do PMDB em relação
ao sistema de governo – parlamentarista ou presidencialista -, e outros pontos
relativos à elaboração da Constituição de 1988 defendidos pela articulação de
centro-direita chamada “Centrão”, da qual o PMDB fazia parte. Ou seja, foi um
racha com motivações ideológicas ainda que envoltas em intenções
eleitorais.
Por
óbvio que o PSDB não poderá jamais ser classificado como um partido
social-democrata clássico, pois possuí origem parlamentar, e não tinha atuação
no movimento sindical e nem em qualquer outro tipo de organização da classe
trabalhadora. De toda maneira o que busco ressaltar é que na sua fundação o
PSDB não se constituiu como força diametralmente oposta ao PT, muito pelo
contrário, surgiu como aliado potencial, tanto é que no 8º Encontro Nacional do
PT (1993), o partido foi caracterizado como um “campo em disputa”.
Afinados
na CPI que investigou as denúncias de corrupção do governo Collor, PT e PSDB
flertaram, e durante um tempo a possibilidade de os social-democratas apoiarem
Lula em 1994 foi real. Sem estabelecer nenhum tipo de análise valorativa, fato
é que a conjuntura que misturava o fim do socialismo real; com o impeachment, o
governo de coalizão nacional e o plano real; e a eleição da direção mais à esquerda
da história do PT, impediu que essa aliança, hoje tão estranha e distante para
nós, se concretizasse.
Todos
sabemos o resultado daquela eleição, e sabemos também que para ser eleito e
governar o PSDB estabeleceu alianças com a direita. Seu aliado de primeira
ordem, Partido da Frente Liberal (antigo PFL e atual DEM), era a antiga Arena,
partido de situação da ditadura, nada mais avesso às críticas que o PSDB fazia
ao PMDB poucos anos antes. O que veio depois é história, a onda neoliberal que já
assolava o mundo só contribuiu ainda mais para que desenvolvimentistas dantes convictos,
implementassem políticas de austeridade fiscal, privatizassem nossas empresas
públicas e priorizassem o capital ao trabalho, em linhas gerais, governassem
como um partido de direita.
Conto
essa história para corroborar a análise de Bernstein citada na epígrafe, e para
demonstrar que nada é dado na política, que
as escolhas não são feita num vácuo, e que neste momento crucial é importante
que o PT dialogue com os partido de esquerda de oposição, aprofunde nossa
aliança histórica com o Partido Comunista do Brasil (PC do B) e o Partido
Democrático Trabalhista (PDT), e não deixe o Brasil perder o Partido Socialista
Brasileiro para a direita, não seria o primeiro caso[3].
Lideranças
carismáticas e eleitoralmente vitoriosas possuem recursos de poder muito
superiores ao demais filiados de um partido, e em maior ou menor grau podem ter
maior controle sobre a máquina partidária que, quanto menos institucionalizada
for, mais estará sujeita a ação desses líderes. Um bom exemplo disso é o caso
de Eduardo Campos, político jovem, em ascensão eleitoral crescente, chegou à
presidência do seu partido tendo alto índice de controle do PSB. Um dos
principais instrumentos que potencializaram a centralização decisória foi a
priorização das comissões provisórias em detrimento dos diretórios municipais e
estaduais. Dado que, em virtude de uma brecha na lei 9.096 de 1995 que
regulamenta o funcionamento dos partidos políticos, as comissões provisórias
podem ser nomeadas e destituídas com facilidade.
A
eleição em dois turnos propicia a expressão de projetos e opiniões múltiplas,
portanto nada mais legítimo que Eduardo e qualquer outro disputarem a eleição
presidencial, no segundo turno, porém a eleição se torna plebiscitária, é a
escolha de um projeto político dentre um rol de opções muito mais restrito,
esse momento demanda responsabilidade e maturidade dos atores envolvidos.
Se
chama a atenção a entrada de nomes pouco afeitos ao socialismo do PSB nos
últimos anos, mais importante é reconhecer a história deste partido e apelar ao
senso crítico daquelas e daqueles que sem dúvida alguma podemos chamar de
companheiros, ainda que recentemente tenhamos sido adversários. O PT precisa
dialogar com Roberto Amaral, Luíza Erundina, Lídice da Mata e tantos outros que
construíram a história desse partido, pois se Marina vai, o PSB, que já foi
extinto pela ditadura e retornou no período democrático, fica. E fica
fortalecido, com uma bancada mais ampla, com maior enraizamento e com capacidade
real de influenciar os rumos do país.
Em um
momento como esse não é possível deixar de discutir a tática eleitoral, mas
para além do que o que construiremos daqui até o dia 26 de outubro, é preciso
pensar no Brasil que queremos para o próximo período, é preciso pensar de
maneira estratégica, em disputa de hegemonia. Diante do avanço do
conservadorismo, o Brasil que queremos começa a ser construído com uma forte
aliança de setores da esquerda, e para que isso aconteça o apoio do PSB a
candidatura de Dilma será fundamental. Assim como já estive em tanto momentos,
quero estar novamente lado a lado da militância do PC do B, PDT e PSB para
lutar pelo aprofundamento do projeto democrático e popular.
Tassia Rabelo
é mestre em Ciência Política e dirigente nacional do Partido dos Trabalhadores.
[1] BERNSTEIN, Eduard. Socialismo evolucionário.
[2] Conceito formulado por Esping-Andersen que define as políticas que
promovem algum grau de autonomia e independência dos indivíduos em relação ao
mercado.
[3] Este artigo foi escrito antes da adesão do PSB a candidatura do Aécio,
apesar da mudança da conjuntura, creio que alguns elementos ainda são válidos
para o debate.
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